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22/11/2006 16:45

Carta de Ivana Jinkings


Caros amigos,
Lamento muito me dirigir a vocês para tratar de assunto tão desagradável. Não tenho alternativa, pois me recuso a legitimar a Folha de S.Paulo como espaço de debates. Após a publicação da coluna de Fernando Barros e Silva, na última segunda-feira, fui procurada por duas repórteres do jornal com o intuito de me ouvir sobre o processo que movo contra César Benjamin. Somente após a denúncia de suposta fraude feita em espaço nobre por seu editor, contrariando as normas do manual do próprio jornal para o qual trabalha. Alegando que por se tratar de espaço de opinião, não haveria motivo para me ouvir. Sofisma. Não atendi a Folha (pra acalmar o espírito, cancelei minha assinatura e proibi definitivamente a doação de livros - que, apesar de serem de uma editora "esquerdista", costumam ser apreciados quando recebidos de graça).

Voltando. Meu ímpeto imediato, na segunda-feira, foi pedir direito de resposta ao jornal, enviar os dados do processo para o ombudsman etc. Mas fui desencorajada por gente que deve ser mais sensata que eu, com argumentos de que uma resposta (que eles publicariam editando da forma que quisessem, no espaço que quisessem) somente os credenciaria junto ao seu público como um jornal "independente", plural, tudo o que sabemos que não são mas bradam como verdade aos quatro ventos. Em contrapartida, aceitei dar uma entrevista a Flávio Aguiar, da Carta Maior, que pode ser lida no endereço http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12824&editoria_id=4 .

O site entretanto preferiu não entrar no mérito do processo contra Benjamin, com o argumento de que isso daria a ele munição para novas denúncias. Acatei a decisão, falei sobre o significado político do ataque furibundo do jornalão, mas não pude me defender da denúncia de fraude. Hoje voltam à carga na FSP, assumindo novamente uma versão como fato, após uma semana em que uma equipe de 3 repórteres buscou provas contra a editora.

Esclareço, então. O processo contra CB (ao qual ele faltou à audiência em SP e depois conseguiu, sabe-se lá como, transferir para Brasília) seguirá adiante. Não usarei, entretanto, as páginas da Folha ou da Veja para esclarecimentos porque não sou uma arrivista. Faria a alegria dos porta-vozes da direita se lhes desse a chance de intermediar essa "batalha entre a esquerda". Embora eu esteja absolutamente convencida, há tempos, de que César Benjamin não é de esquerda, sei que há gente séria e bem-intencionada que ainda pensa que sim. Por essa razão limito - ao menos por ora -, o envio desta mensagem aos autores, aos colaboradores da Boitempo e aos meus amigos, a quem devo explicações.

Eu teria muito a dizer sobre o personagem que a Folha - derrotada nas eleições como arauto do conservadorismo - utilizou pra empreender sua tentativa de desconstrução da esquerda. Egocêntrico e vaidoso, achou que haveria uma debandada do PT há 12 anos, quando saiu do partido após manifestação teatral. Escreveu um livro achando que descobrira a chave da revolução brasileira, requentando um velho desenvolvimentismo e repetindo meias verdades. Costuma pontificar em seus textos uma pseudo-erudição de almanaque e ataca a esquerda - primeiro o PT, mais recentemente o PSOL - sempre pela grande imprensa. Não construiu nada de coletivo e consistente, a moral que ostenta para desancar as pessoas é inversamente proporcional às suas relações políticas. No ano passado o ex-governador do Rio de Janeiro, Antonny Garotinho (cujo governo, aliás, sempre foi poupado das autoproclamadas brilhantes análises de Benjamin), declarou à mesma Folha de S.Paulo: "Eu tenho conversado com o César Benjamin, que tem me assessorado e até trabalhado comigo". Não preciso desperdiçar meu tempo ou o de vocês para falar o que representa Garotinho na política brasileira.

Apesar de atribuir a si mesmo o dom da coragem e da transparência, Benjamin não esclarece como a editora Contraponto, de sua propriedade, consegue tantos subsídios públicos. Basta um olhar atento ao seu catálogo para que se verifique a quantidade de co-edições e apoios de órgãos oficiais, incluindo a Faperj, durante o governo Garotinho. Enfim, tem sido bastante útil à direita mais truculenta, de quem ultimamente recebe afagos e acolhida.

Meu processo contra Benjamin deveu-se a uma correspondência enviada por ele em 2004, e depois distribuída a várias listas da internet, na qual, entre outras acusações a Emir Sader, afirmava que a Boitempo teria participado de uma licitação fraudulenta para edição do livro Governo Lula: decifrando o enigma, com textos publicados no site Outro Brasil. Isso se dava no momento em que César era afastado da coordenação do projeto Outro Brasil, da Fundação Rosa Luxemburgo. A essa altura, o livro em questão estava sendo editado pela Contraponto, editora de César, e havia para ele um orçamento de R$ 31.500,00, aprovado pela Fundação à época em que César era coordenador do projeto - esse orçamento, que ele agora renega, faz parte dos autos. César, ao ser informado de que teria de se submeter à licitação (exigência da Fundação Rosa Luxemburgo), desistiu da publicação. Argumentava que com sua desistência a edição perdia, entre outras, vantagens como "a praticidade e a confiabilidade, na medida em que eu [César] me tornava completamente responsável, diante da equipe e da Fundação, por assegurar a melhor combinação possível de qualidade, velocidade e custos". Alegava, após reconhecer que conseguiu da Fundação uma verba de 100 mil euros, que não poderia ser licitado e licitante, o que é correto, mas o fenomenal é que poderia ser contemplado sem a licitação! Ou seja, queria fazer o livro, mas não aceitaria confrontar seu orçamento com o de mais ninguém...

Convidada a editar a obra (sobre a "combinação" a que ele se refere, e que a Folha hoje endossa sem provas, o único e-mail que recebi do Emir, nunca apresentado pelo César mas que deve sustentar a tese dos "detalhes sórdidos", também está anexado ao processo; nele, me consulta sobre o interesse da editora, explica o que seria o livro, o prazo etc.), a Boitempo apresentou um orçamento de R$ 29.800,00, que levava em conta o curto prazo para a edição do volume (dois meses), mas ainda assim era inferior ao valor que estava anteriormente destinado à Contraponto, conforme podem comprovar as notas fiscais emitidas e apresentadas pelos profissionais que participaram da edição, e que também fazem parte do processo. Esse é, portanto, o único caso de superfaturamento em que o preço final é menor que o inicialmente orçado.

Para entregar o livro na data acordada, contratamos profissionais experientes como Túlio Kawata, Aluízio Leite, Gilberto Maringoni; alteramos a programação da editora, paramos projetos, assumimos custos. É óbvio, e não há nada de vergonhoso ou imoral em admitir, que o custo de produção (lembrando que há também custos fixos, administrativos e impostos) foi inferior aos R$ 29.800,00 pagos pela Fundação. Se não fosse assim, não teríamos produzido com urgência esse livro. Não era projeto da Boitempo, nunca fiz parte da equipe do Outro Brasil, os exemplares não seriam comercializados. Aceitei editar a obra porque ela eventualmente viabilizaria outro título de nosso catálogo, sem em nada envergonhá-lo. Benjamin, ao contrário, integrava (na época coordenava) o projeto, era remunerado por ele, e ainda assim preparava a edição, sem crises morais, por quase dois mil reais a mais. A tiragem de Governo Lula: decifrando o enigma foi entregue à Fundação e ao LPP-Uerj, e foi distribuída para movimentos sociais como o MST e outros. Para maiores detalhes sobre esse episódio, anexo a nota pública assinada à época pela equipe do Outro Brasil (cujas contas foram aprovadas pela Fundação, tendo sido renovado o projeto).

Divergências políticas são uma coisa, essas nós enfrentamos todos os dias. Mas não posso permitir que depois da leviandade (para ser elegante) levantada por esse profeta do caos, da qual me defendo, questões dessa gravidade sejam novamente propagadas por sites, blogs, e agora pela grande imprensa, e permaneçam sem resposta. Há dois anos, pedi a Benjamin que se retratasse, que enviasse minha resposta para suas listas, o que ele obviamente não fez. Por isso recorri à Justiça.

Hoje, César faria melhor se em vez de ter se tornado aliado de fernandos e outros "jornalistas" piores, em sua busca por holofotes, justificasse por exemplo porque até hoje não publicou os Grundrisse, de Marx, embora tenha recebido duplo financiamento para sua tradução, sendo um deles polpuda verba da Faperj. Quanto à Boitempo, a única coisa que consegui acumular nos 11 anos à frente da editora foi um catálogo respeitável e a certeza de trabalhar corretamente. As contas da editora, as pessoais, minha história estão abertas a qualquer tipo de investigação - não há e não haverá uma mancha sequer na minha biografia a constrangê-los.

Não peço condescendência. Mas é sintomático que os porta-vozes do conservadorismo, incapazes de atacar a esquerda ou quem pensa diferente no terreno das idéias, transitem agora pelo terreno de uma suposta moralidade pública.

Peço uma vez mais desculpas pelo incômodo desta mensagem e por ser portadora de tão más notícias.

Abraços,

Ivana

enviada por Zé Dirceu






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